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Tudo parecia normal

  • pereiratereza698
  • 15 de nov.
  • 4 min de leitura

Quando ela despertou, a primeira sensação foi de estranha tranquilidade, a luz da manhã era suave, filtrada por uma cortina bege translúcida, o ar estava ameno, fresco e parado, a cama onde ela repousava era confortável o bastante para que, por alguns instantes, nada parecesse fora do lugar. Por algum motivo ao qual não deu importância em um primeiro momento, a casa estava cheia de espelhos, o que em circunstâncias normais poderia ser no mínimo desconcertante, porém, naquele momento não pareceu… tangível o suficiente, ao contrário, despertava nela uma sensação quase tranquila. Não era exatamente assustador, só… curioso.


As paredes e o teto também pareciam refletir como espelhos discretos, até mesmo algumas partes do chão tinham placas polidas estratégicas, onde sua silhueta se alongava, tudo estava tão limpo, tão organizado, tão silencioso, que a estranheza parecia discreta demais para incomodar, era como um sussurro suave, um suspiro tímido, como se estivesse em um lugar moderno demais, era diferente, perfeitamente funcional, mas ainda assim era sóbrio, insípido, distante e íntegro. Nada ameaçador, nada obviamente errado. E, ainda assim, por razões que ela não compreendia, evitou silenciosamente e quase que instintivamente, olhar para qualquer espelho, mas não por medo, não havia medo. Havia apenas uma sensação leve, incômoda, como um arrepio que nunca chega a acontecer, como um frio desinteressado que se nos ossos tal qual uma vibração.


Enquanto caminhava pela casa, notou que tudo parecia… normal. Uma mesa arrumada, cadeiras no lugar, o som distante do vento filtrado pelas várias janelas espelhadas, um som crepitante e intermitente de uma lareira, a luz pálida do sol entrando pelas cortinas bege translúcidas, o Le Modèle Rouge, de René Magritte destacado na parede cáqui, o ruído rítmico dos seus próprios passos no assoalho de madeira polida, e enquanto isso lá fora a vida se desenrolava normalmente, quando um pensamento passou rapidamente por sua cabeça por um instante apenas, como um raio que corta a noite em uma tempestade e logo se esvai, “onde estão os pássaros?”. Não havia pássaros. 


Cada coisa estava exatamente onde deveria estar, cada objeto era familiar na forma, na cor, na disposição, firmando assim um pacto silencioso de reconhecimento íntimo, mesmo que no fundo a casa não parecesse realmente sua. Porém havia algo no reflexo das coisas… O reflexo das coisas era sempre um pouco mais quieto do que o normal.


Ela atravessou o corredor, sentou-se calmamente no sofá vermelho sob a manta verde-pálido dobrada impecavelmente, bebeu água da moringa de cerâmica branca, e olhou para o belo vaso de wolfsbanes cuidadosamente dispostas ao lado de um exemplar de “Das Unheimliche”, tudo organizado com a mais perfeita naturalidade. A sensação de rotina, de familiaridade, de calma, de “é assim mesmo”, a acompanhava de maneira permanente, nada a surpreendia, nada a assustava. Mesmo assim, algo lenta e imperceptivelmente se erguia sob a superfície, um pressentimento sutil como um sussurro que se recusa a formar sentido, a sensação suave do toque de um fio de cabelo.


Às vezes, ao passar os olhos por um espelho periférico, achava ver sua sombra se atrasar meio segundo, ou talvez fosse só impressão, os movimentos eram idênticos, claro que eram e ainda assim… algo ali parecia não se encaixar, de alguma forma não parecia certo. Mas no final, ela seguiu normalmente seu dia, como se tudo estivesse perfeito, a tensão apenas roçava sua pele, sem nunca morder de verdade.


Quando anoiteceu, a atmosfera não mudou muito, apenas escureceu como deveria escurecer, as sombras tornaram-se mais longas, quase naturais e, por algum motivo, ela encarou um dos espelhos, não porque algo a obrigasse, mas porque parecia… corriqueiro, normal, doméstico.


Então caminhou até o maior deles, no final de um corredor estreito, o qual nem tinha percebido que estava ali antes, o vidro se estendia do chão ao teto, imponente, impecável, insólito. Ela parou diante dele como quem se posiciona para algo esperado, rotineiro, ensaiado. Respirou fundo e ergueu o rosto. 


E tudo deixou de ser normal… O reflexo que a observava não era o seu.


Não era um rosto conhecido, não era uma versão alterada dela, não era ninguém que ela reconhecesse.


A pele era diferente, mais escura, mais opaca, os olhos eram outros, amendoados em um tom cinza antinatural, os cabelos lisos de um preto profundo, havia naquela pessoa refletida no espelho, uma cicatriz fina na bochecha esquerda, uma expressão estranha, uma postura que jamais fora sua. E o pior, ela sabia com absoluta convicção que ela estava naquele corpo, aquela sem dúvidas era ela, ela estava ali de verdade, até aquele momento não havia duvidado disso, não havia motivos para desconfiar.


O reflexo então sorriu, um sorriso suave, quase educado, quase pudico. Mas o sorriso veio um instante antes do dela, era pequeno demais para justificar pânico e grande demais para ser ignorado. E então, no instante seguinte o reflexo deu um passo à frente. Ela não se moveu.


Os lábios do outro se mexeram, silenciosos, articulando palavras que ela não ouviu, mas infelizmente entendeu: “Você não deveria ter visto isso.” E pôs o dedo indicador na frente dos lábios risonhos em sinal de silêncio.


Foi só aí que o verdadeiro peso da realidade caiu sobre ela, no instante exato em que despertou na própria cama, com seu próprio rosto, respirando aos engasgos como se tivesse emergido debaixo d’água.


Tudo fazia sentido agora, a pseudo-organicidade, a estranheza superficial, a pacificidade tênue, a calma artificial… Tudo estava “normal” porque na verdade nada era dela, aquela casa, aquele corpo, aquele rosto desconhecido. Após despertar, somente a lembrança do reflexo permanecia tão firme, tão real, tão corpóreo ainda martelando dentro dela, como se alguém do outro lado ainda estivesse à espreita, à espera de uma brecha para se infiltrar, se esgueirando por entre paredes, observando silenciosamente e pacientemente por entre as névoas da consciência, sussurrando… e rindo.


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